O trem estava lotado como todos os outros dias neste horário. São 7 da manhã, e todo mundo se acotovela para não perder a hora de entrada na firma. Apesar do caos, ainda existe a preocupação de deixar o outro entrar, porque se sabe a merda que é perder a hora de entrada no trabalho. A solidariedade vem de gestos como segurar a porta depois do bip e se apertar ainda mais nos corpos que estão na frente.

É horário até de poucos ambulantes. Ao menos eu sempre vejo poucos. Deve ser porque não conseguem gritar tão alto e nem andar por lá. E aí entra um pastor quando o trem para depois da minha estação. Fica ali perto da porta, e mesmo que quisesse invocar as forças do hell não conseguiria sair de lá.

Vestido com aqueles ternos de quinta preto, com colete preto e camisa preta, dá arrepio só de imaginar o calor que é lá dentro. Ele começa a berrar com a bíblia na mão aquelas coisas que todo pastor fala, mas quase ninguém ouve pelo modo bizarro que é gritado. A atenção fica nos berros e as palavras morrem neles. Ninguém acredita que aquele lugar poderia ficar pior do que já estava: com tanta gente e tanto suor. Todos se olham sem saber o que fazer para aquela pessoa sumir dali.

Um tio que tirava um cochilo de braços cruzados acorda e fica olhando com sangue no zóio. O pastor repete a mesma frase duas vezes: “todo mundo aqui é filho de Deus”. Na segunda vez, uma voz com sotaque nordestino vem do fundo para a alegria do vagão: “todo mundo menos você, seu fdp!” (pastor 0 X 1 povão).

O dono da frase se movimenta entre as pessoas que abrem espaço como se fosse um apoio para o que ele estava fazendo (pastor 0 X 2 povão). Ele vai para cima do pastor sem dó (pastor 0 X 3 povão). Uns seguram de um lado, outros de outro. Alguns ficam do lado do pastor. Parece que se ofenderam com a frase da verdade, talvez por seguirem a mesma religião, vai saber. (pastor 1 X 4 povão) Formam uma muvuca perto da porta e não dá mais para saber quantos estão em cada time.

A porta abre na estação Prefeito Saladino (nome que descobri depois dos 10 anos, antes jurava que era Prefeito Salaminho), o pastor vai de boca no chão (pastor 1 X 5 povão). E a gente ri, ué… Todos que estavam envolvidos na briga desceram para continuar a coisa do lado de fora, sem se importar se iam perder o horário ou não.

A porta fecha para a tristeza dos que ficaram do lado de dentro, que grudam na janela para ver os últimos momentos. O trem parte, a alegria de hoje acaba.


Vida de trem

03Nov09

No trem todo mundo toma gardenal, tem conta de luz atrasada, tem conta de água atrasada. No vagão está todo mundo atrasado e sempre está calor. As vezes alguma desmaia, outro cai no vão quando a porta abre. Já vi porrada de um cara que xingou um pastor e de gente disputando lugar no puxão de cabelo. Já vi gente se conhecendo no trem, já conheci muita gente também na hora de compartilhar alguma coisa para ler.

Já dei muita risada das rimas dos ambulantes, e de como eles rimam mais ainda quando não estão vendendo… e conseguem arrancar gargalhadas e uns trocados de quem está lá espremido. Tem trovador também, repentista, tem cantor, tem pedinte, tem moranguete.

Acho que já andei mais de trem do que de metrô e de ônibus juntos. Minha vida já passou muito por lá. Quando estiver velha, e quiser lembrar de quando era adolescente e  matava aula para ir na galeria do rock, vou pegar o trem. Quando quiser rir do fora mais fenomenal, dos dias que voltei com o sorriso de orelha a orelha, e das noites que acabavam seis da manhã junto com o resto do trem indo para o trabalho, também.

Já desmaiei com trem lotado, já paguei mico seis da manhã, já conheci gente e reencontrei velhos amigos no trem… mas nunca caí do vagão. yeah/.

Mais um dia:


My favorite thing is to go where I’ve never been.

Diane Arbus, self-portrait
Diane Arbus, self-portrait

Dito says:

01Nov09

… O Dito dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma… [Guimarães Rosa]

feliz


31Oct09

Hoje foi um dia daqueles que não merecem título de post, mais conhecido como #shitday. Queria mesmo esquecer e não gostaria de lembrar que já existiram outros assim. Muitos. Na verdade, alguns se fosse contabilizar os já vividos. Dane-se. Se está escrito aqui, ao menos um dia vou lembrar de novo.

E depois de chegar em casa salva, (não quero contar detalhes para não me aborrecer mais) algo mudou de verdade. Não. Isso não é a história de moral de alegria após a desgraça. Mesmo porque não gosto muito da ideia de que para alcançar a felicidade a gente precise fazer sacrifícios. Acho só que isso é um jeito que muitas pessoas levam a vida e até se prejudicam dele, porque aceitam coisas ruins por acharem que isso é um “castigo”, uma “etapa” até o bom chegar.

E pela primeira vez no meio desta lama que o dia teve a pachorra de me jogar, e no meio da tristeza, não tive mais saudade do passado. Tive saudade do futuro e olhei para frente. Parecia uma despedida do que por muito tempo me prendi. Mas uma despedida daquelas que a gente nem chora, só tranca a porta com força e manda pastar. Adeus e fim.


Toda fotografia é um testemunho segundo um filtro cultural, ao mesmo tempo que é uma criação a partir de um visível fotográfico. Toda fotografia representa o testemunho de uma criação. Por outro lado, ela representa a criação de um testemunho. [Boris Kossoy]

Desta belezinha aqui.


Nunca perdi nada, minha filha. Em toda essa vida… Nada! E quer saber? Vou te falar que as coisas que não sei onde estão são a mais bem guardadas. [de uma voz grossa e rouca vinda do meio da estação da Luz]

luz


Peguei emprestado na biblioteca, e já estou com uma semana de atraso. Sempre me auto-boicoto quando um livro é bom. Leio bem mais devagar, volto capítulos. Releio depois que acabou. Tenho medo de acabar logo e não achar um tão bonito quanto ele.

A foto é literalmente uma emanação do referente. De um corpo real, que estava lá, partiram radiações que vêm tocar-me, a mim, que estou aqui. Pouco importa a duração da transmissão; a foto do ser desaparecido vem tocar-me como os raios emitidos por uma estrela. Uma espécie de ligação umbilical liga o corpo da coisa fotografada ao meu olhar: a luz, embora impalpável, é aqui um meio carnal, uma pele que eu partilho com aquele ou aquela que foi fotografado.

[A Câmara Clara | Roland Barthes | Edições 70]


HunterS.Thompson
"A imprensa é uma gangue de
covardes impiedosos.
Jornalismo não é uma profissão,
não é nem mesmo um ofício.
É uma saída barata para
vagabundos e desajustados –
uma porta falsa que leva à parte
dos fundos da vida, um buraquinho
imundo e cheio de mijo,
fechado com tábuas pelo inspetor
de segurança, mas fundo o
bastante para comportar um
bêbado deitado que fica olhando
para a calçada se masturbando
como um chimpanzé
          numa jaula de zoológico”.
[Hunter Stockton Thompson] 


Achava freelar legal. Achava. Fico o dia todo de pijama com máscaras de pepino e/ou esfoliação na cara enquanto trabalho, e com os pés enfiados numa bacia cheia de ervinhas que fazem bem para eles.

Posso comer qualquer hora, mesmo que um dos objetivos for emagrecer. Objetivo esquecido, por sinal, no meio da jornada diárias de horas inexatas. Posso comer também aqui em frente, qualquer porcaria que for, mas sinto falta de não ter com quem dividir, porque não sou filha única, sempre comprei mais do que aguentava comer para poder perguntar se as pessoas querem o que estou enfiando na boca compulsivamente.

Acho bom o silêncio ou o barulho das músicas que mais gosto. Posso ir até o banheiro dançando e cantar que nem louca qualquer hora.

Não tem que pensar na roupa pela manhã, nem se vou repetir, se tem que levar guarda-chuva ou blusa de frio na bolsa por conta do tempo que pode mudar depois de tanto tempo num mesmo lugar longe de casa. Também durmo minhas 8 horas sagradas a hora que quiser.

Mas o que mais queria era chegar pela manhã com a bolsa cheia de coisas, porque o tempo pode mudar ou a gente pode sair para algum lugar. Falar “Bom dia” para as pessoas com cara de sono e algumas de sono + mau humor, ter hora de almoço e procurar lugares novos para comer. Ter mais equilíbrio em não comer o dia todo e não precisar de creme na cara toda hora. Eles podem muito bem cuidar dela somente enquanto durmo.

Queria gente para cantar comigo. Meu segredo super secreto é que, na verdade, adoro fazer o backing vocal com aquelas mãozinhas super femininas. Queria dividir novidades, e ter opiniões e sugestões do que estou fazendo, e dar sugestões quando alguém pedir. Ter happy hour de sexta e aniversário do mês. Ter novidade todo santo dia de gente que ainda nem conheço. Poder trocar, repartir… o que parece estar parado aqui.